Maior berçário de tartarugas do mundo registra eclosão inicial com números mais positivos: 60 mil filhotes
Após um ano marcado por uma redução de 70% no número de nascimentos de filhotes de tartarugas-da-amazônia, tracajás e outros quelônios no Vale do Guaporé (RO), a temporada de eclosão de 2025 começou com um cenário mais promissor. Na primeira fase de contabilização, entre 11 e 15 de dezembro, foram registrados 60 mil filhotes, segundo dados do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama).
Ainda segundo o Ibama, a expectativa é que o pico da eclosão ocorra nas próximas semanas. O órgão informou que o processo deve se estender até o fim de dezembro e o início de janeiro e, ao final do período de monitoramento, os dados coletados serão analisados estatisticamente, permitindo uma estimativa mais próxima da quantidade real de filhotes nascidos na área monitorada e um balanço desse resultado.
No último domingo (14), o Ibama, a Associação Quilombola e Ecológica do Vale do Guaporé (Ecovale) e o Grupo Energisa participaram de um evento que marcou a abertura do período de nascimento, com a soltura dos animais resgatados nos berçários do Vale do Guaporé.
Mudanças climáticas
Os impactos das mudanças climáticas continuam a afetar de forma significativa o ciclo reprodutivo das espécies. Em 2025, de acordo com as instituições que monitoram e acompanham o Programa Quelônios do Guaporé, voltado à proteção e conservação das espécies, a desova ocorreu de forma tardia.
Neste ano, também foi identificado que o Rio Guaporé não baixou no tempo considerado correto e, por isso, não houve muitas faixas de areia disponíveis para que as tartarugas depositassem seus ovos. O processo deveria ter sido iniciado entre o final de setembro e o início de outubro, mas acabou acontecendo apenas por volta de 21 e 22 de outubro em razão do alto volume de chuvas e das baixas temperaturas registradas no chamado tabuleiro do Guaporé.
Segundo o biólogo do Grupo Energisa, José Carrate, houve um atraso de aproximadamente 15 dias no início da eclosão.
As eclosões eram esperadas para o início de dezembro, mas só começaram na segunda quinzena. Por isso, o número de filhotes nascendo está abaixo do previsto para este período”, explica.
O coordenador da Ecovale, José Soares, destaca que, apesar dos impactos climáticos, a expectativa para este ano é de aumento no número de filhotes em relação aos nascimentos registrados em 2024. Segundo ele, observa-se uma maior concentração nos berçários monitorados pelos programas ambientais. Soares explica que as condições climáticas ainda interferem no processo, provocando atrasos e, em alguns casos, perdas. Ainda assim, o cenário é otimista. “Nossa expectativa é não registrar muitas perdas neste ano”, afirma.
A consolidação dos resultados será divulgada entre o final de dezembro e o início de janeiro, quando todas as contagens são planilhadas e enviadas ao Programa Quelônios da Amazônia (PQA), em Brasília.
Ações de acompanhamento
A Energisa acompanha, desde 2021, os impactos ambientais provocados pelas mudanças climáticas na região, por meio do monitoramento em tempo real das variações de chuvas e de períodos de seca, realizado com o apoio de plataformas digitais. Esse acompanhamento permite correlacionar as informações ao ciclo hidrológico local e verificar se a subida e a descida dos rios estão de acordo com os parâmetros definidos pelos órgãos ambientais, no âmbito da parceria firmada com o programa.
O apoio da Energisa ao programa ocorre por meio de suporte logístico e do fornecimento de energia elétrica à base da Ecovale, com o uso de painéis fotovoltaicos, garantindo infraestrutura adequada para a permanência dos fiscais comunitários e dos órgãos ambientais. De forma indireta, a empresa também viabiliza o acesso à internet, que depende da energia para funcionar, possibilitando a comunicação em tempo real entre os comunitários, a Ecovale e os órgãos ambientais em caso de qualquer distúrbio nos locais de postura das tartarugas.
Trabalho contínuo
O superintendente estadual do Ibama, César Luiz da Silva, explica que a iniciativa teve início como projeto e passou a ser um programa em função da relevância do manejo de quelônios na Amazônia, iniciado em 2011. O objetivo é ampliar o índice de sobrevivência das espécies e garantir a manutenção de uma população estável.
“O programa é fundamental diante do histórico de consumo e predação humana desses animais, que em anos anteriores os levou à beira da extinção. A partir dos esforços realizados em parceria com a Ecovale, foi possível reverter esse cenário, e hoje a população se mantém estável graças ao programa”, afirma.
Com 39 anos de atuação, o Projeto Quelônios do Guaporé é uma das principais iniciativas voltadas à preservação e à manutenção dessas espécies na região. A ação é realizada pelo Ibama, em parceria com a Associação Quilombola e Ecológica do Vale do Guaporé (Ecovale) e apoio do Grupo Energisa.
O Vale do Rio Guaporé é considerado o maior berçário de quelônios do mundo. Em um raio de aproximadamente 30 quilômetros, estão distribuídas sete praias desse importante nascedouro — cinco em território brasileiro e duas no lado boliviano — onde tartarugas-da-amazônia, tracajás e outras espécies da região realizam a desova.