24/07/26 - 4 minutos de leitura
Flexibilidade, a palavra que define o futuro da energia
No videocast Energia em Transição, da Abradee, Ricardo Botelho, CEO do Grupo Energisa, e Luiz Augusto Barroso, CEO da PSR, explicam por que o desafio do setor elétrico deixou de ser gerar mais energia e passou a ser colocar essa energia na hora certa e no lugar certo
24/07/26 - 4 minutos de leitura
Flexibilidade, a palavra que define o futuro da energia
No videocast Energia em Transição, da Abradee, Ricardo Botelho, CEO do Grupo Energisa, e Luiz Augusto Barroso, CEO da PSR, explicam por que o desafio do setor elétrico deixou de ser gerar mais energia e passou a ser colocar essa energia na hora certa e no lugar certo
Durante décadas, uma única pergunta orientou o planejamento do setor elétrico brasileiro. Como gerar mais energia?
Hoje a pergunta é outra. E a resposta cabe em uma palavra que aparece cada vez mais nas conversas sobre o futuro do setor. Flexibilidade.
Foi esse o tema central do episódio mais recente do videocast Energia em Transição, produzido pela Abradee (Associação Brasileira de Distribuidores de Energia Elétrica) e conduzido pela jornalista Leila Sterenberg. Os convidados foram Ricardo Botelho, CEO do Grupo Energisa, e Luiz Augusto Barroso, que comanda a consultoria PSR.
O problema mudou de lugar
"O Brasil deixou de ter um problema de expansão de energia para ter uma situação de coordenação da energia no tempo e no espaço", afirmou Botelho logo no início da conversa.
Traduzindo para o dia a dia, o país passou a viver dois extremos dentro de um mesmo dia. Em horários de sol forte e pouco consumo, como feriados e fins de semana, sobra energia entrando no sistema. No fim da tarde, quando o sol se põe e todo mundo chega em casa, o consumo dispara e a energia falta. Esse comportamento, que despenca no meio do dia e sobe de forma acentuada à noite, ficou conhecido no setor como curva do pato, por causa do formato que o gráfico desenha.
Na rede de distribuição, o desafio aparece com outro nome, fluxo reverso. A rede foi construída para levar energia da usina até a tomada, sempre no mesmo sentido. Com a geração distribuída, casas, comércios e indústrias também passaram a produzir energia e devolvê-la para a rede. O resultado é um sistema em que a energia circula em várias direções ao mesmo tempo, gerando variações de tensão e sobrecargas que as distribuidoras precisam corrigir.
"O problema deixou de ser produzir mais para produzir, consumir, armazenar, deslocar a energia para a hora certa ou colocar essa energia no lugar certo", resumiu Botelho.
O que as novas regras trouxeram, e o que ficou de fora
Boa parte da conversa foi dedicada às medidas provisórias 1300 e 1304, já convertidas em lei. Barroso as descreve como uma minirreforma do setor elétrico, construída sobre três caminhos principais, justiça tarifária, portabilidade da conta de luz e organização de encargos.
Entre os avanços, ele destaca a renda mínima energética, que isenta consumidores de baixa renda do pagamento da conta de luz até um determinado volume de consumo. Também cita a portabilidade da conta de luz para o consumidor residencial a partir de 2028, no mesmo espírito do que já existe na telefonia celular, o reconhecimento do armazenamento como figura formal na regulamentação e a criação de um teto para a Conta de Desenvolvimento Energético (CDE), que concentra os subsídios pagos pelo país.
O ponto de atenção é o que ficou pelo caminho. As propostas de redução dos subsídios já existentes, que somam cerca de R$ 50 bilhões, não sobreviveram à tramitação. "O Brasil é campeão mundial de ter o subsídio reverso, o pobre, o super hiper pobre está subsidiando nichos específicos", afirmou Barroso. Cortar subsídios que já estão em vigor, comparou, é como tentar colocar a pasta de dente de volta no tubo.
Ainda assim, ele considera o saldo positivo. Se não deu para reduzir o que já existia, ao menos travou-se a criação de novos subsídios.
O consumidor entra em cena
Se a solução tradicional era construir mais linhas e reforçar subestações, a flexibilidade abre um novo menu de opções.
Baterias podem guardar a energia que sobra e devolvê-la quando falta, adiando obras físicas na rede. Sinais de preço podem mostrar ao consumidor quanto vale deslocar o consumo para outro horário. E a resposta da demanda permite acordos em que o cliente recebe desconto ao longo do ano em troca da possibilidade de reduzir o consumo em momentos de congestionamento, sempre com aviso prévio.
Para coordenar milhões de interações simultâneas entre sensores, painéis solares, baterias e veículos elétricos, digitalização e inteligência artificial deixam de ser um diferencial e passam a ser condição básica de operação.
É nesse contexto que o Grupo Energisa criou o Energisa Flex Lab, um laboratório para testar essas ideias em escala real, na própria rede da companhia. A primeira chamada pública de ideias recebeu 300 propostas, vindas de 21 entidades de 13 países.
De transição para transformação
Barroso propõe uma correção de vocabulário. Transição dá a ideia de sair de um ponto A e chegar a um ponto B. O que está acontecendo, na avaliação dele, é uma transformação energética, algo mais profundo, que muda por completo a relação das pessoas com a energia.
E a distribuidora está exatamente no ponto em que essa transformação chega ao consumidor. Mais do que o fio que leva energia até a tomada, ela precisa assumir um novo papel.
"Temos que pensar na distribuidora como uma orquestradora desses recursos que estão distribuídos", afirma Botelho. "O mercado pode oferecer soluções, mas a distribuidora tem a responsabilidade pela segurança, pela qualidade e pela coordenação da rede."
Dá o play
A conversa vai além. Resiliência das redes diante de eventos climáticos extremos, o uso da inteligência artificial na operação do sistema e o dever de casa do Brasil para as próximas décadas são temas que Ricardo Botelho e Luiz Augusto Barroso destrincham ao longo do episódio.
São 50 minutos que ajudam a entender para onde caminha a energia no país, contados por quem está dentro dessa discussão todos os dias.
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